Comunidade Espírita “A Casa do Caminho”
Iriê Salomão de Campos
O rio da nossa aldeia
Rio é um caminho que anda levando lembranças
de onde passou. Não importa se é o Nilo, Danúbio, Gangis ou Paraibuna, “é o rio que
passa pela minha aldeia”, disse Fernando Pessoa. Mesmo estando ali, aos
nossos olhos e alcance das mãos, é quase uma lenda. Lembranças vivas de tempos
imemoriáveis. Mais que testemunha, é arquivo da história das terras que banha, testemunho do povoamento, o sangue arterial das
cidades. O Gangis é o rio mais poluído do mundo; o
Nilo, segundo estudiosos, pode ter em suas águas a causa material para a próxima
guerra na região; o Danúbio reúne em seu leito cientistas de oito países na
maior expedição sobre um rio, para avaliar se pode ser
novamente a emblemática cor observada por Johan Strauss em sua famosa valsa. O nosso
Paraibuna está próximo,
lento, de águas escuras e tristes, moribundo, sem que nada tenha sido feito por
ele que fosse além das promessas. Nossa artéria transporta sangue contaminado, a
cidade tem seu arquivo morto. É passada a hora de pensarmos no que estamos
fazendo aqui. Juiz de Fora merece respeito por ser o nosso lar, a nossa
pólis, por estar
acima de interesses partidários, por ser onde material ou espiritualmente
escolhemos viver. A vida é movimentada nos dois planos; matéria e espírito se
fundem em uma só vida de muitas existências, por isso a necessidade da
reencarnação, progredindo rumo ao alto. Conseqüentemente, pensar em preservação
do todo ecológico é salvar o verde, é resguardar o meio criado pela sabedoria
divina para nos acolher de forma a não sofrermos desnecessariamente. Se estamos
reunidos há tantos anos
nesta comunidade juiz-forana, é porque temos compromisso moral com ela, não sendo a nós
permitido fechar os olhos, negando a verdade que nos
encerra.
É dever de todo cristão zelar pelo bem maior, que é a vida e onde ela se processa.
Nós da Comunidade
Espírita “A Casa do Caminho” a saudamos, Juiz de Fora, como fazemos com todo
amigo querido no decorrer de seu natalício. Mas não nos limitamos ao abraço
comemorativo, que é necessário e válido. Beijamos respeitosamente suas mãos
simbólicas que acolheram nossos antepassados, toda vez que recebemos
Juiz de Fora, amiga que nasceu à beira de um caminho chamado Novo, cresceu no pioneirismo de uma estrada chamada União, prosperou com as indústrias às margens da rodovia 040. Hoje é centro universitário. Tudo se modifica. Ficou o rio, mesmo que sofrido, abandonado, caminho que anda no destino maior do encontro com outros, que perde sua identidade ao trocar de nome e chegar ao mar. Como a própria vida na reencarnação; o homem de hoje foi outro ontem e será seu resultado no amanhã. Eis a nossa responsabilidade com o todo, pois no presente tecemos nosso futuro. Crendo em Deus ou não, conhecendo a Divina sabedoria ou a desdenhando, estamos entrelaçados na grande família espiritual que se reúne nesta cidade para fazer valer a vontade superior de progresso moral, respeito e fraternidade. Nesta data, saudamos os 34 anos da nossa A Casa do Caminho e os seus 158, Juiz de Fora. Tempos distintos e muitas afinidades, não é por acaso que nasceram e estão à beira do caminho, ambas cultivando a capacidade de acolhimento aos que buscam viver junto a nós. Seu lema é pela pátria e pela cidade, o nosso é pelo Evangelho e pelo Brasil, coração do mundo; em seu brasão a carruagem passante, em nossa mensagem o desejo que “passem e fiquem em Juiz de Fora.”