Comunidade Espírita “A Casa do Caminho”
Iriê Salomão de Campos
Eu vim cumprir a lei
A Lei não se destrói; fica sem efeito quando a sociedade fica à altura igual ou superior, merecendo nova legislação. O que era ontem não tem razão de ser hoje, assim também o que é hoje não poderia ter sido ontem, porque frustraria as leis naturais que agem em tudo, ensina-nos Caibar Schutel. Nosso planeta, como é da Lei Universal, vem progredindo, mesmo com marchas e contramarchas por milhares de séculos. Não é fato simples entender a expressão progresso, no que tange ao conhecimento. Mesmo para o mais ilustrado, a legenda fiat lux força ao mergulho profundo no sentido espiritual das palavras “faça-se a luz.” Progresso, em princípio, pode ser visto como libertação via entendimento. Libertar forças interiores, movimentando emoções segundo as quais passamos a agir, como o motor no inicial esforço da movimentação da máquina, mas que se atenua à medida que o carro ganha velocidade, até a estabilidade das leis que regem os movimentos. Esforço e alívio, elementos indispensáveis à caminhada incessante, de baixo para cima, do não ser para o ser, do mínimo ao máximo do pequeno ao grande, do interior para o exterior a fim de que a luz se faça nas almas pela aprendizagem. Das cavernas aos centros urbanos, do autoritarismo à democracia da tocha à energia nuclear, seguimos crescendo ainda agarrados ao solo terreno pela incompreensão moral de nosso papel.
Estudando a mensagem divina, encontramos Abraão semeando o Deus Único, criador e regente do universo. Repetido por séculos as bocas crentes fizeram-no combustível de seu movimento até que um novo legislador hebreu afirmou: “ eis a Lei, esta não veio destruir a revelação Abraâmica”, mas dar-lhe cumprimento. O código Mosaico foi o complemento indispensável ao nível daquele povo. Tantos séculos se passaram e com eles muitos profetas informando que os novos tempos são chegados e a observância da Lei se faz na presença humanizada do Cristo entre nós. Jesus, o Cristo de Deus, cumpridor exímio da Lei, retificou os erros de interpretação, impregnando de amor toda a esfera humana ao revogar o “dente por dente; o olho por olho”, abolindo os cultos e denominações, mostrando a fraternidade sob o domínio absoluto da nossa filiação Divina. Jesus seguiu sua jornada, sem nos deixar órfãos e João apontou em seu Evangelho: “O Consolador, o Espírito de Verdade relembrará tudo o que vos tenho dito, vos ensinará todas as coisas e anunciará as que estão por vir” (XVI, 12-14). Com o mesmo apóstolo (XIV, 21), Jesus afirma categoricamente: “ Estarei convosco até a consumação dos séculos.” Diante de tal afirmação, como crer na estagnação da imagem do crucificado, aquele que derrotado pelo homem jaz no madeiro infame? Desalento, misticismo, crendices, dogmas e mitos infiltraram-se no Cristianismo ao longo dos séculos que se sucederam ao Cristo no planeta. A religião dominadora em nada lembrava a sutileza da Manjedoura, a ruptura dos cânones a abolição dos cultos ritualísticos, bem como a expulsão dos vendilhões. Tudo estava de volta. O trono de ouro sobre o divino, a catedral sobre o sepulcro, a manjedoura soterrada pelo templo de pedra e intolerância.
Mas o Planeta Terra como tudo na Lei Universal vem progredindo, e novo elenco de conhecimento libertador fez-se necessário. O século XIX sacode a poeira dos tempos idos com uma avalanche de descobertas nos diversos campos do conhecimento; dos raios-X ao petróleo, da expansão mundial da ferrovia ao telégrafo do Positivismo ao Marxismo tudo foi sendo completado, remexido e provocado a caminhar; o motor novamente acionado foi ganhando velocidade, porém ainda emperrado na falta de um combustível equivalente à exigência da máquina. Eis que na segunda metade do XIX, observando o fenômeno mundial das manifestações extra-sensoriais, Allan Kardec coordena o trabalho de uma equipe de médiuns e abre as portas de um novo tempo no conhecimento, a era dos espíritos, fazendo cumprir as palavras do Cristo apontadas por João ao reviver o mais puro do Cristianismo, o Amor ao próximo, o Perdão como fonte de progresso, a ausência de templos e rituais que sempre estiverem além do íntimo do coração. O servir sempre, respeitar pai e mãe que são os sustentáculos da família e é sobre esta que se firma a nação, reafirmando a fórmula para se chegar ao Pai.
A Doutrina Espírita não veio destruir a lei, mas dar-lhe cumprimento.
Recorrendo novamente às reflexões contidas na obra de Caibar Schutel na construção do grande Monumento, que se ergue para abrigar a humanidade, Abraão abriu os alicerces, Moisés ergueu a obra, Jesus a aperfeiçoou em toda a sua plenitude, cabe ao Espiritismo restaurá-la dentro de sua integridade, erguendo a humanidade a níveis superiores que permitam uma aceleração do seu progresso.