Comunidade Espírita “A Casa do Caminho”

Iriê Salomão de Campos

 

 

Eles não sabem o que fazem

 

Nos instantes derradeiros de sua presença física no planeta Terra, Jesus exclamou piedoso: “Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem”. Obedecendo ao imediatismo natural do ser humano, pensamos tratar-se de moribundo protestando contra a sentença irrevogável, à qual estava submetido. Retornando à pátria Divina, não se fez ausente. Fez-se presente entre os discípulos, renovando em cada coração a mensagem de Amor ao próximo, exemplificando que o calvário materialista em nada viria a modificar a semeadura do Bem, sendo necessário que tivessem os homens olhos de ver e ouvidos de ouvir.

Não basta saber escutar as palavras dos profetas que antecederam ao Cristo, decorar os Sermões do Monte ou suas palavras e muito menos se declarar devoto desta ou daquela religião. Olhos de ver nos remete a pensar a vida em seu mais profundo sentido, ver na lida diária o nosso papel de Cristão, enxergando no próximo o companheiro de progresso moral. Ouvidos de ouvir é atentar o sentido íntimo da audição para as mensagens do Evangelho, que a cada instante rompem dos céus, rasgando a crosta poluída planetária para penetrar o seio da sociedade tão distraída com as formalidades e aparências. É importante socorrer o que sofre, mas não é tudo; importa também ficarmos atentos às vaidades familiares, às antigas crenças e intrigas pessoais que ao longo dos milênios só fizeram abafar a semente que Jesus lançou nos corações ardentes. O grão mais promissor não frutificará se coberto de lama e detritos. O que fazer, então? É necessário que humanizemos nossas ações e pacientemos os corações; a exemplo de Saulo, o jovem tarsense, rabino das leis, preocupado com os erros alheios, mergulhado em discussões das Leis Mosaicas, tornou-se carrasco inclemente em nome do Sinédrio, até que o Cristo o indagou: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Superando a si mesmo, removendo do mais íntimo todos os detritos e lama, viu nascer Paulo de Tarso, o Apóstolo dos Gentios, homem de olhos e ouvidos abertos, ao testemunhar o mais puro e sublime Cristianismo, em resposta espiritual aos esforços dedicados ao nascer de um “homem novo”, contrariando sem temor as ordenações sociais, políticas e religiosas de sua época.   

Por tempos infindos, as sabedorias ministradas por Jesus têm sido sufocadas por símbolos, um livro, uma construção, a liderança messiânica ou outra materialidade qualquer, chegando ao extremo de a chamada Terra Santa tornar-se palco de longas guerras em nome daquele que desencarnou pela paz. Mais recentemente, foi o escândalo da batalha campal no interior do Santo Sepulcro; grupos Ortodoxos se agrediram fustigados pela vaidade. Não muito distante no tempo, quando em visita ao Museu do Holocausto, a autoridade eclesiástica perguntou “Onde estava Deus, quando isso acontecia?”. Realmente eles não sabem o que dizem e fazem. O mesmo Paulo de Tarso ensina: “Nas minhas reflexões solitárias, cheguei à conclusão de que a Terra Prometida pelas divinas revelações é o Evangelho do Cristo Jesus”, e ainda, “Adaptarmo-nos ao Evangelho é descobrir outro país, cuja grandeza se perde no infinito da alma”.

Como vemos não existe qualquer circunscrição geográfica nem mesmo lingüística, o Evangelho em máxima pureza das interferências mundanas é o porvir, que urge construção individual e permanente, indo ao encontro daqueles aos quais causamos importunos, resgatando a serenidade no convívio, superando rixas e ultrapassados sentimentos; de modo que não mais necessitemos ouvir “Perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem”.          

 

 

 

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