Comunidade Espírita “A Casa do Caminho”

Iriê Salomão de Campos

          

 

                     A razão da fé

 

Uma dentre muitas palavras que assolam a mente humana ao longo de sua existência civilizatoria, a fé. Convicção em uma força superior invisível aos olhos materiais e ao mesmo tempo pulsante em todos nós. Será essa emoção a simples crença em algo misterioso criado pela inventiva dos sacerdotes e pensadores como uma ferramenta de consolo para os tempos em dificuldades ou sentimento facilitador nas operações rudimentares da vida? Crer em Deus e cultivar a crença via religião é ser um alienado? Não raro confundimos fé com a crença banal. Recorremos à fé, quando estamos em conflito de toda ordem. O estudante suplica a ajuda divina na dificuldade da avaliação,  para a qual não estudou com responsabilidade que lhe cabe, outro roga a proteção quase privilegiada na realização da transação financeira e aquele que roga para que seus desmandos não sejam revelados.

Somos seres de pouca fé. Por isso, dos tempos antigos aos dias presentes, cremos ser divino tudo aquilo que é grande e espetaculoso. Há catedrais erguidas à custa de fortunas, esforço físico e tempo, em nome da fé; livros encadernados com ouro e fino papel dito sagrado tornaram-se instrumentos de opressão dos que pensam diferente de suas letras; estatuas colossais que reproduzem heróis guerreiros conquistaram altares devoção; e a autoflagelação em nome de Deus é espetáculo que supõe fé.

 Fé é o exercício do Bem, e o maior exemplo encontramos no Cristo. Vejamos Jesus sem a roupagem criada pelas religiões. Foi Ele um homem simples, viveu ensinando o Bem, e exemplificando essa virtude até então inédita para aquelas populações rudes e místicas, regidas pelas leis de Moisés cultuavam a força e severas penas. Com o Cristo, nascem,  no Sermão da Montanha, o Deus-Amor e uma nova era para a humanidade. Perdoar sempre independente da razão e falta cometida. É assim que está no Pai Nosso “... perdoai as nossas ofensas como perdoamos quem nos tem ofendido.”  Esse perdão puro e singelo é a justa medida da fé, pois ao exercê-lo entregamos à espiritualidade a condução de nossa vida; logo as emoções infelizes deixam de habitar nossos corações, passamos a viver sem mágoas ou peso de consciência, nos tornamos pessoas mais felizes e equilibradas. Pensando ser a fé um sentimento esporádico, por  desconhecimento, não entendemos nossa razão de viver. Allan Kardec afirma taxativamente que “...que só é inabalável a fé que pode enfrentar a razão face a face em todas as épocas da humanidade.” Levando-nos a pensar que a fé nesse sentido não deve estar vinculada a nenhum princípio que não seja divino, quando sabemos que ele é sua origem. Rotineiro também é crer que seja somente um aspecto religioso. A fé é o que nos move além dos limites do imediatismo, ampliando a visão para o futuro sem desvinculá-la do presente. Acreditar com fé não é sinônimo de alienação, mas acreditar sem obra é a fé morta, inconsistente. Por isso, Jesus ensinou e exemplificou com  trabalho. “Eu vim para os que sofrem.”, afirmava. Ensinando a Justiça de Deus, indicou a fragilidade das leis humanas, temporárias e falíveis como o próprio ser humano. Mas é possível legislar com dignidade, basta despir-se do orgulho, da vaidade, dos títulos terrenos, do status que não dura além desta vida e abraçar, acolher no mais íntimo d’alma a Divina sabedoria.

Neste delicado momento, quando os juristas do Brasil discutem o aborto dos anencéfalos e muitos se posicionam  com veemência favorável, torna-se fundamental lembrarmos o testemunho do juiz de direito da 2ª. Vara Cível de Juiz de Fora, dr Luiz Guilherme Marques, que, em artigo recém publicado, afirma “... Entendo que, perante  Deus, os pais que pedem autorização judicial para abortar um feto anencéfalo cometem homicídio, o mesmo se dizendo do médico que realiza a cirurgia e o juiz que autoriza o aborto.”  Mais uma vez os detratores do Cristo se unem como arautos do egoísmo e vaidade, legislando sobre as emoções alheias, como foi claramente demonstrado pelo defensor do aborto, quando este recusou e afirmou ser inválido o testemunho da mãe que, em juízo, confessou ter sido plenamente feliz enquanto seu filho anencéfalo viveu ao seu lado.

É mais que necessário, é vital que conheçamos a verdadeira força que é a Fé, para não ficarmos sujeitos aos desmandos de materialistas e oportunistas, pessoas sem qualquer escrúpulo ao amor ao próximo.

 Que o Cristo tenha piedade dessas pessoas e que elas descubram sem sofrimento que Deus é amor.

     

 

 

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